E agora é o acaso quem me guia. Sem esperança, sem um fim, sem uma fé, Sou tudo: mas não sou o que seria Se o mundo fosse bom — como não é!

Segunda-feira, 21 de Abril de 2014

A poucos dias de se comemorar os 40 anos da revolução, é pertinente fazer a pergunta – será que a Revolução dos Cravos nos trouxe algo de novo?

Na realidade, com o feito heroico dos militares, o poder, foi por estes entregue ao povo – aos partidos políticos – que nos quase 40 anos assumiram as rédeas do poder.

A nossa vida democrática começava a ser uma realidade, permitindo-nos caminhar a passos largos no caminho de um Portugal justo, solidário, mais social e com menos desigualdades. O povo trabalhador, começou a ter mais facilidades de emprego e ao mesmo tempo, deixou de ser o “bobo da corte” do mundo laboral.

A liberdade nasceu igual para todos, depois de mandar para o baú do passado o lápis azul da censura.

Passaram 40 anos, vários governos surgiram, todos eles com uma tónica comum – traziam na alma o sectarismo.

Nos últimos tempos, o retrocesso começa a ser uma realidade. A nossa soberania começa a ser substituída pelos ditames vindos do exterior. O espelho, que nos mostra o presente, começa a refletir imagens que adornaram o Salazarismo.

A propósito do retrocesso, aconselhamos a ler o texto escrito por Paulo Morais, que veio publicado no Correio da Manhã do último sábado e que seguidamente reproduzimos:

É um déjà vu

“Em vésperas do 25 de Abril de 1974, o ambiente é de tensão e medo.

Atingiu-se o grau zero da vida política. O Presidente da República, Américo Tomás, é um corta-fitas, limita-se a fazer inaugurações pelo País, acompanhado de sua mulher, Gertrudes. O chefe do governo, Marcelo Caetano, chegou ao cargo prometendo enormes reformas, anunciando a abertura do modelo de administração. Mas ficou refém dos poderes fáticos dominantes e, em particular, dos grandes grupos empresariais. Uma deceção.

O tecido económico é dominado por meia dúzia de famílias que controlam a economia nacional, se alimentam da manjedoura do orçamento e vivem de negócios e rendas favorecidos pelo estado. Os Espírito Santo e a família Mello lideram a lista. Os negócios dependem de mecanismos de cessão de privilégios, dum "condicionamento industrial", de alvarás e licenças, através do qual o poder determina quem pode desenvolver negócios. Os níveis de emigração são galopantes. Todos os anos, mais de cem mil portugueses rumam a outras paragens para fugir da fome e da pobreza. A alternativa é ficarem por cá, trabalhando de sol a sol, a troco dum salário miserável, que nem sequer garante uma sobrevivência com um mínimo de dignidade.

O ambiente social degrada-se. Existe um abismo cada vez maior entre uma multidão de famintos e um pequeno grupo multimilionário. Esta nova aristocracia vive em mansões de milhões, onde se sucedem festas sumptuárias. Mas, em simultâneo, a miséria é crescente. Sucedem-se intermináveis filas nas sopas dos pobres. As senhoras das chamadas famílias "de bem" brincam à caridadezinha, distribuindo bens alimentares pelos famintos. Porque lhes dão comida, arrogam-se o direito de lhes dar sermões, de lhes chamar malandros. O regime disfarça toda esta pobreza e injustiça com os instrumentos de propaganda, onde se destaca a RTP, com os seus atores e cançonetistas do regime, uma informação pró-governamental, o futebol e o fado.

Em 1974, com as Forças Armadas insatisfeitas, as movimentações castrenses são permanentes. Anuncia-se a revolta.

Agora: voltar ao início do texto; substituir 1974 por 2014, mudar nomes (apenas alguns); ler de novo.”

Por: Paulo Morais, professor universitário

Quarenta anos passados, para onde estão a ser levados os ideais de Abril!

"A ameaça do mais forte faz-me sempre passar para o lado do mais fraco."

Passar para o lado dos que lutam por um mundo livre, mais equitativo e mais generoso - "Generosidade é dar mais do que você pode, orgulho é pegar menos do que você precisa."

Amorim Lopes

publicado por 59abc59 às 19:43

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