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DÁDIVAS

E agora é o acaso quem me guia. Sem esperança, sem um fim, sem uma fé, Sou tudo: mas não sou o que seria Se o mundo fosse bom — como não é!

E agora é o acaso quem me guia. Sem esperança, sem um fim, sem uma fé, Sou tudo: mas não sou o que seria Se o mundo fosse bom — como não é!

DÁDIVAS

07
Abr11

RELEMBRANDO ABRIL

59abc59

Tempo triste, boca amordaçada, vontade de ser alguém dificilmente alcançada. Tempo de opressão, de liberdade limitada, que muitas vezes se transformava em prisão. Foi esta a vida que nos foi doada, até ao nascimento do 25 de Abril libertador.

Vivemos na escuridão de um Portugal, de negras nuvens de opressão, injustiça, desigualdade e de crer e não poder. Repentinamente, deparamo-nos com o túnel libertador, onde lá no fundo surgia a luz da liberdade e democracia. Luz que vinha de um céu azul aquecido por um sol, engalanado pelas bandeiras da liberdade, igualdade, solidariedade e justiça.

Tempo passou, o céu limpo foi alternando com o céu nublado e muito nublado. Presentemente vivemos num País, com o céu carregado de negras nuvens, onde o trovejar parece estar iminente. Esperemos que depressa, com a força, inteligência e dedicação de todos, o sol volte novamente a brilhar.

Espanta-nos ter ouvido dizer, que a Assembleia da República, ia fechar portas à comemoração do 25 de Abril. Será que os representantes do Povo, têm coragem de virar costas à comemoração da data festiva, que foi o começo da Nossa libertação e o fermento da sua existência?

Por tudo o que foi dito, gastemos alguns minutos para ler e reflectir, o pequeno excerto do poema de José Carlos Ary dos Santos , “ As Portas Que Abril Abriu “

 

As Portas que Abril Abriu!

Era uma vez um país
onde entre o mar e a guerra
vivia o mais infeliz
dos povos à beira-terra.
Onde entre vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
um povo se debruçava
como um vime de tristeza
sobre um rio onde mirava
a sua própria pobreza.
 Era uma vez um país
onde o pão era contado
onde quem tinha a raiz
tinha o fruto arrecadado
onde quem tinha o dinheiro
tinha o operário algemado
onde suava o ceifeiro
que dormia com o gado
onde tossia o mineiro
em Aljustrel ajustado
onde morria primeiro
quem nascia desgraçado.
 Era uma vez um país
de tal maneira explorado
pelos consórcios fabris
pelo mando acumulado
pelas ideias nazis
pelo dinheiro estragado
pelo dobrar da cerviz
pelo trabalho amarrado
que até hoje já se diz
que nos tempos do passado
se chamava esse país
Portugal suicidado.
 Ali nas vinhas sobredos
vales socalcos searas
serras atalhos veredas
lezírias e praias claras
vivia um povo tão pobre
que partia para a guerra
para encher quem estava podre
de comer a sua terra.
 Um povo que era levado
para Angola nos porões
um povo que era tratado
como a arma dos patrões
um povo que era obrigado
a matar por suas mãos
sem saber que um bom soldado
nunca fere os seus irmãos.
 Ora passou-se porém
que dentro de um povo escravo
alguém que lhe queria bem
um dia plantou um cravo.
 Era a semente da esperança
feita de força e vontade
era ainda uma criança
mas já era a liberdade.
(Poema de José Carlos Ary dos Santos)
 
Amorim Lopes

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