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DÁDIVAS

E agora é o acaso quem me guia. Sem esperança, sem um fim, sem uma fé, Sou tudo: mas não sou o que seria Se o mundo fosse bom — como não é!

E agora é o acaso quem me guia. Sem esperança, sem um fim, sem uma fé, Sou tudo: mas não sou o que seria Se o mundo fosse bom — como não é!

DÁDIVAS

07
Mai15

GUERRA JUNQUEIRO EM 1896 ESCREVE ALGO SOBRE PORTUGAL

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Em 1896, quando já são passados um século e 19 anos, Guerra Junqueiro faz um retrato do País, que no seu todo, é a imagem por nós vivida neste Portugal de Abril.

Infelizmente para todos nós e para os que outrora aqui moraram, o País, foi e continua a ser injusto, corrupto, com grandes desigualdades sociais e onde, por vezes, a solidariedade é substituída pela ganância.

É “linha de gente”.

Sempre foi assim e sempre assim será, até um dia em que o POVO acorde, se una, encha de coragem, e com a garra e toda força que tem, ouse construir um mundo novo.

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TEXTO

 "Um povo imbecilizado e resignado, humilde e macambúzio, fatalista e sonâmbulo, burro de carga, besta de nora, aguentando pauladas, sacos de vergonhas, feixes de misérias, sem uma rebelião, umMOSTRAR de dentes, a energia dum coice, pois que nem já com as orelhas é capaz de sacudir as moscas; um povo em catalepsia ambulante, não se lembrando nem donde vem, nem onde está, nem para onde vai; um povo, enfim, que eu adoro, porque sofre e é bom, e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso da alma nacional, reflexo de astro em silêncio escuro de lagoa morta.
Uma burguesia, cívica e politicamente corrupta até à medula,não descriminando já o bem do mal, sem palavras, sem vergonha, sem carácter, havendo homens que, honrados na vida íntima, descambam na vida pública em pantomineiros e sevandijas, capazes de toda a veniaga e toda a infâmia, da mentira à falsificação, da violência ao roubo, donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral, escândalos monstruosos, absolutamente inverosímeis no Limoeiro.
UmPODER legislativo, esfregão de cozinha do executivo; este criado de quarto do moderador; e este, finalmente, tornado absoluto pela abdicação unânime do País.
A justiça ao arbítrio da Política,torcendo-lhe a vara ao ponto de fazer dela saca-rolhas.
Dois partidos sem ideias, sem planos, sem convicções, incapazes, vivendo ambos do mesmo utilitarismo céptico e pervertido, análogos nas palavras, idênticos nos actos, iguais um ao outro como duas metades do mesmo zero, e não se malgando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu noPARLAMENTO, de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar."
               

Guerra Junqueiro, 1896.

Temos esperança que Portugal vai acordar!

Amorim Lopes

 

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